12 SECONDS

12 Seconds – Beatrice Mason

O ano de 2013 passa voando com suas múltiplas caras, notícias, memes e virais. Há um amontoado de informações a serem digeridas, ou nem isso. Às vezes são mesmo produzidas para incautos apenas engolirem, sem nem sequer sentirem o gostinho. O tal do século 21 de fato chegou, mas não é nada daquilo que, no passado, se imaginou. Os cartazes nas ruas são rapidamente colados uns por cima dos outros, há uma fugacidade feroz em tudo. Fama? Fama é seu rosto na capa do jornal de hoje, e amanhã esse mesmo jornal embrulha o peixe, como dizia, escolada, Meryl Streep ainda no século passado. Sai 2013, entra 2014 e a velocidade aumenta, junto com o calor. Como pode haver glamour com esse sol?

Porém, entre fotos e nomes, pos-Cardinales bombadas, espaçonaves, guerrilhas, haja talvez uma necessidade ainda maior de produtos tecidos com as mãos, mesmo que usando cacos de algo que se quebrou. Garrafas pet virando moveis, roupas… coisas que, recicladas vão se transformando em outras, para outro uso, com outros fins, se fazendo belas, enfim.

Talvez essa seja essa a mais forte impressão, ao se ouvir o novo CD de Beatrice Mason, “12 Seconds”. Os sons processados, os vazios sendo ocupados por delays se distorcendo nas próprias repetições, os ecos assumidos de Bjork, Everything But the Girl, um pouco da elegância de um Bowie, tudo isso reprocessado, porem jamais num liquidificador. A produção musical de Alexandre Vaz prefere montar os cacos manualmente, trazendo a eletronica na ponta dos dedos, montando um novo mosaico de sons e texturas que abraçam a doce, porem segura voz de Beatrice. O resultado é lindíssimo, e orgânico, apesar de passar por dentro de tantos fios, inputs, gadgets. Está mantida a essência, e o repertório reforça a viagem cinematográfica que é esse disco.

Beatrice continua fiel a Vitor Ramil, Jorge Drexler. E agora traz também Kevin Johansen, Fred Martins, entre outros brilhantes compositores. A regravação de “Minha Flor, Meu Bebe”, de Cazuza e Dé Palmeira, é um momento a mais pra se falar de amor, mesmo que os amigos não entendam, digam que está louca… e que há uma pontinha de prazer nessa dor. Ou será uma pontinha de dor nesse prazer? Nada mais Cazuza.

Outras cerejas desse bolo são, de um lado, a presença de Beatrice como compositora (em parceria com Ana Clara Horta) em “Slow Mornings”, com um arpeggiator em ostinatto dando um sentido quase flamenco na programação, e de outro a participação especial de João Cavalcanti (talvez a melhor voz masculina de sua geração) em “No Voy a Ser Yo” (Johansen/Drexler). João canta com Beatrice em espanhol, pela primeira vez, creio. Por que não?

Os músicos participantes, poucos e ótimos, conferem a atmosfera necessária ao CD, seja remetendo aos teclados “anos 80″ de Rodrigo Tavares, ou às programações e execuções rítmicas cheias de cores de Lourenço Monteiro, Jongui e Marcelo Vig, os baixos econômicos e fundamentais de Jorge Ailton e Mauro Berman. Completando o time, os sopros de Vander Nascimento e os pianos e teclados de Pablo Lapidusas.

De brinde, como um bonus track, um remix by Da Lua/Bruno L T sobre “When Love Breaks Down”. Tudo isso vem muito bem amarrado num conceito gráfico lindo e quente, criado e diagramado pela multi-talentosa Maíra Knox.

Em “12 Seconds”, Beatrice Mason dá um passo importante e afirmativo em sua carreira, trazendo um trabalho consistente, ousado, minimalista, seja nos arranjos ou mesmo no tempo total do disco. É um passo, que ao meu ver, ela deu na frente, e não tem volta. Não há mais espaço para discos longos e pesados. Afinal, quem lê tanta noticia?

Rodrigo Campello
Rio de Janeiro, abril de 2014

The year 2013 flies by with its multiple faces, news, memes and virals. There is a pile of information to be digested, or not even that much. Sometimes they are produced merely to be swallowed and not tasted. The 21st century really arrived, but it is nothing like we imagined in the past. Billboards in the streets are quickly pasted over one another, there is a ferocious fugacity in everything. Fame? Fame is your face on the frontpage news today. And tomorrow that same newspaper wraps up the fish, as an experienced Meryl Streep once said, in the past century. Out goes 2013, in comes 2014 and the speed goes up, as does the heat. How can there be any glamour under this sun?
However, among photos and names, distorted Cardinales, spaceships, guerrillas, maybe there is an even greater need for hand-woven products, even if using pieces of something that’s been broken. PET containers… turning into furniture, clothes… things that when recycled and transformed into something else, with another purpose, reveal a new beauty.
This may be the strongest impression when listening to Beatrice Mason’s new album, “12 Seconds”. The processed sounds, the quiet, empty moments being filled with delays distorting in their own repetitions, the echoes of Bjork, Everything but the girl, a twist of Bowie elegance, everything processed, but never in a blender. Indeed, the careful production of Alexandre Vaz prefers to put the pieces together manually, bringing electronica at the tip of his fingers, building a new mosaic of sounds and textures that embrace Beatrice’s sweet, but assured, voice. The result is strikingly beautiful, and organic, in spite of making its way through so many cables, inputs, gadgets. The essence is kept, and the repertoire reinforces the cinematographic voyage that this album is.
Beatrice remains faithful to Vitor Ramil, Jorge Drexler. And this time she also picked Kevin Johansen, Fred Martins, among other brilliant songwriters. Her version of “Minha Flor, Meu Bebê” (Cazuza and Dé Palmeira), brings one more moment to speak of love, even if her friends don’t understand it, if they say she is crazy… and that there is a hint of pleasure in such pain. Or would it be a hint of pain in this pleasure? So Cazuza…
Other cherries on this cake are, on one side the songwriter Beatrice Mason (with Ana Clara Horta) in “Slow mornings”, with an arpeggiator ostinatto almost evoking a flamenco, and on the other side the special appearance of João Cavalcanti (perhaps the best male voice in his generation), as guest singer in “No Voy a Ser Yo” (Johansen/Drexler). João sings with Beatrice in Spanish, for the first time, I think. Why not?
The musicians in the album, few and outstanding, set the atmosphere necessary for the album, whether on the “80’s” keyboards of Rodrigo Tavares, or the colourful rythmic programming and playing of Lourenço Monteiro, Jongui and Marcelo Vig, the fundamental and discrete basses of Jorge Ailton and Mauro Berman. To complete the team, Vander Nascimento and his trumpet and flugelhorn, and the pianos and keyboards of Pablo Lapidusas. In the end a little gift, a bonus track: a remix by Da Lua/Bruno L T of “When Love Breaks Down”. And all of this beautifully wrapped in a warm and cool graphic design concept, created by multi-talented Maíra Knox.
In “12 Seconds”, Beatrice Mason takes an important and affirmative step in her career, presenting a consistent, audacious, minimalistic new album, whether we think of the arrangements or the total time of the album.
It’s a step that I believe she took first, and there’s no going back. There’s no more place for long and heavy albums. After all, who keeps up with so many news?

Rodrigo Campello
Rio de Janeiro, April 2014

























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